Resenha 393 | O ódio que você semeia

Oi, pessoal, tudo bem?

Sabe quando você termina um livro e fica por um bom tempo pensando nele? Foi assim com "O ódio que você semeia". Falei um pouco dele no post sobre livros com protagonistas negras (que você confere aqui) Mas essa história é tão especial e necessária que precisava de uma resenha.

Título: O ódio que você semeia
Autora: Angie Thomas
Editora: Galera Record

Sinopse: Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial.
Não faça movimentos bruscos.
Deixe sempre as mãos à mostra.
Só fale quando te perguntarem algo.
Seja obediente.
Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos - no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início. Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa. Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar.
Starr e sua família são negros e moram em uma bairro violento, na periferia de uma cidade americana. Ela e os irmãos estudam em um colégio de classe média alta em outro bairro, uma escolha dos pais para que os filhos pudessem se distanciar, mesmo que momentaneamente, da realidade intensa de onde vivem. Para ser aceita na escola, Starr tenta se adaptar: diminui as gírias consideradas "de negros", molda suas atitudes para que não seja vista como "a garota do gueto". Ainda assim, seu cabelo black e seus tênis de basquete a transformam na aluna "descolada". Não preciso dizer que Starr e os irmãos são a minoria negra do colégio, certo? Desde cedo ela teve "a conversa" com os pais. Mas não aquela que fala sobre a importância de usar camisinha, mas a que ensina como se comportar diante de um policial: sempre deixar as mãos à vista, fazer exatamente o que é pedido, nunca reagir. Afinal, Starr é "um grupo de risco", negros nunca são bem visto por policiais, apenas por serem negros. 

Starr viu sua melhor amiga de infância levar um tiro e morrer enquanto brincava na rua. As duas ainda eram crianças. Anos depois, é Khalil, seu também melhor amigo, que está na mira de uma arma. Starr pegou carona com ele para sair de uma festa e o carro foi parado por um policial, que insistiu em revistar o veículo em busca de drogas. Ela vê quando Khalil, de costas e desarmado, é alvejado. Única testemunha do crime, Starr precisa encontrar a sua própria voz para vencer o luto, a culpa, e garantir que esta morte não vai ficar impune.

Foto: Nat Eiras
"O ódio que você semeia" tem inspirações no movimento Black Lives Matter que é uma frente ativista internacional que milita contra a violência direcionada aos negros. O BLM nasceu nas redes sociais após a absolvição de um que matou homem branco que matou um negro desarmado a tiros . Agora o movimento ganhou força em vários países, inclusive aqui no Brasil.

Acho que todo mundo deve ter ouvido/lido uma história semelhante, certo? Um jovem negro é morto por policiais e imediatamente "descobre-se" que o rapaz é bandido, aliciado ao tráfico, carregava x quilos de drogas. Mas nenhuma arma foi encontrada com essa pessoa. É exatamente o que acontece com Khalil. No livro ele é traficante, sim. E aqui nem vou colocar o motivo pelo qual ele vende drogas. Não vou falar da falta de oportunidade, do drama da mãe, da necessidade da avó, etc. O fato é que mesmo sendo traficante, ele estava desarmado e seu carro estava limpo. Com isso, a autora problematiza sobre a truculência da polícia, a morte de inocentes e a falta de representatividade negra no dia-a-dia.

Com Starr sentimos o medo de ser a única testemunha de um crime, sentimos o gosto da impunidade e percebemos como é ver uma pessoa que amamos ser julgada pelos veículos de imprensa sem poder fazer nada. Por sorte ela conta com o apoio da sua família e do seu namorado (que é branco).

"O ódio que você semeia" é super necessário e importante para discussões sobre racismo, algo tão próximo de nós que é muito fácil substituir o Khalil por Rafaéis Braga, Fernandos Cunha, Herinaldos Santana, Eduardos Ferreira, entre tantos outros exemplos. Assim como é muito fácil adaptar a situação da Starr, uma das poucas pessoas negras em um colégio, por muitas meninxs em escolas particulares. Em todo o meu ano escolar, tirando a faculdade que tinha uma rotatividade muito maior nas turmas, estudei com apenas cinco pessoas negras da alfabetização até o terceiro ano do ensino médio.

E antes de terminar esta resenha, queria deixar alguns dados para vocês. Vocês sabiam que segundo pesquisa da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e do Senado Federal, todo ano, 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados? Isso representa 63 jovens por dia ou um a cada 23 minutos. A taxa de homicídios entre jovens negros é quase quatro vezes a verificada entre os brancos.

Lembrando que você pode comprar o livro usando um cupom de desconto do Extra 





6 comentários:

  1. Venho escutando muitos comentários maravilhosos sobre esse livro. Ainda não tive a.oportunidade de ler mas espero em breve conseguir e ver como esse livro tão premiado pode mexer comigo. Ótima resenha.

    Beijos.

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  2. Hey, Kel!

    Sua resenha está ótima! Entregou o necessário para me cativar. :)
    Só tenho lido elogios a respeito desse livro e estou bem ansiosa pra ler.
    Acho importantíssimo disseminar essa mensagem para o mundo, tanto sobre negros como homo e transexuais. Independente de qualquer coisa, todos somos pessoas e apenas isso deveria importar.
    Lerei na primeira oportunidade.

    Beijos!

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  3. Olá, tudo bem?
    Eu ainda não li esse livro, mas já tenho ele em casa e quero ler ainda em 2017. Como você disse, é uma leitura muito importante e aborda um assunto que, infelizmente, ainda é muito presente na nossa sociedade. Acredito que seja muito doloroso realizar essa leitura e saber que não se trata de ficção, mas de algo que acontece diariamente nos EUA, no Brasil e em outros países.
    Adorei sua resenha e espero que muitas pessoas leiam este livro. Quem sabe faça as pessoas começarem a refletir e fazer algo para mudar essa realidade triste.
    Beijos!

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  4. Hey!
    Gostei muito da sua resenha :) Tenho lido muitos comentários positivos sobre o livro e agora estou começando a me arrepender de não ter escolhido ele na news. Já está incluso na minha lista de leituras :)

    Bjs!

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  5. Hey!
    Gostei muito da sua resenha :) Tenho lido muitos comentários positivos sobre o livro e agora estou começando a me arrepender de não ter escolhido ele na news. Já está incluso na minha lista de leituras :)

    Bjs!

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  6. Esse é aquele tipo de livros urgente, sabe, que bom que você trouxe essa obra para eu poder ler essa resenha, a situação da população negra no Brasil é vergonha, o racismo institucional está aí e temos que ainda lutar por quem nega isso. Esse é um livro pedagógico e fiquei muito feliz de encontrar uma resenha tão boa aqui em seu blog.

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